segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

União Internacional de Arquitetos critica parceria DF-Cingapura


Felipe Werneck, enviado especial a Maceió

MACEIÓ - No momento em que a escolha de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade completa 25 anos, a Federação Panamericana de Associações de Arquitetos aprovou um documento contra a recente decisão do governo do Distrito Federal de contratar, sem licitação, uma empresa de Cingapura para planejar os próximos 50 anos da capital do País.

Albert Dubler, da UIA
Albert Dubler, da UIA: 'O Brasil é um país democrático e Cingapura, não'
A carta, que será encaminhada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), expressa preocupação em relação às "consequências negativas – e certamente irremediáveis – à cultura" e reafirma o "caráter simbólico exemplar da capital, cujo futuro não há de ser projetado por gestos mágicos traçados desde pranchetas distantes, mas por um processo permanente". Também reitera a "compreensão de que o planejamento territorial e urbano é tarefa indissociável do exercício da soberania política", destacando a "alta qualificação dos arquitetos e urbanistas brasileiros, capazes de exercer com eficiência as tarefas de planejamento do território de seu País".
'Surpreendente'

As críticas ao projeto de planejamento estratégico do governador Agnelo Queiroz (PT) dominaram as discussões no 24° Congresso Panamericano de Arquitetos, realizado em Maceió (AL) até sexta-feira. "O mundo inteiro olha para Brasília e eles vão olhar para Cingapura. É algo completamente surpreendente, por várias razões", diz o francês Albert Dubler, presidente da União Internacional de Arquitetos (UIA), entidade ligada à Unesco.

Segundo Dubler, a primeira razão é política: "O Brasil é um país democrático e Cingapura, não; então existe um desequilíbrio." Para Dubler, a segunda razão é a própria arquitetura. "Brasília é um exemplo para arquitetos do mundo inteiro. Não sei para quem Cingapura é um exemplo. Então, é como se chamássemos o McDonald’s para fazer um restaurante de gastronomia na França." A terceira, segundo ele, é a noção de escala. "A superfície de Cingapura é do tamanho de Maceió. É surpreendente que tenham procurado uma empresa assim para fazer uma projeção de longo prazo para uma metrópole que foi escolhida para ser a capital do seu país."

Há cinquenta anos, quando foi tomada a decisão política de se construir Brasília, diz Dubler, outras cidades foram criadas, como as que estão em torno de Paris. "Todas essas iniciativas encontraram dificuldades depois de certo tempo. Quando analisamos essas dificuldades, vemos que não podemos resolvê-las sem consultar a população", acrescenta o arquiteto. "É preciso ter governança. Eu não imagino como esse diálogo vai acontecer com Cingapura. Ter uma ideia de projeto representa 5%. O desenho, 10%. Mas 85% é discutir com as pessoas. Para fazer isso, temos de convencer a população do projeto." Para Dubler, existe ainda uma questão simbólica. "A criação de Brasília aconteceu em um momento de exercício da democracia. A democracia não é solúvel no comércio, não é algo de mercado, por isso é importante a participação de pessoas do Brasil."

'Contrassenso'


Em outubro, o secretário de Assuntos Estratégicos do DF, Newton Lins, disse ao Estado que a empresa de consultoria Jurong foi escolhida por apresentar "técnica inovadora de análise territorial" e possuir "larga experiência em macrozoneamentos, com portfólio invejável de 1.700 projetos espalhados pelo mundo". "A essência é muito mais de crescimento e desenvolvimento econômico do que urbanístico. O mais importante é atrair investimentos, indústrias. É uma empresa de consultoria e análise de gestão. As pessoas ficam assustadas porque é algo novo", disse Lins na ocasião sobre o planejamento previsto no contrato.

Para Dubler, é justamente isso que torna o projeto "inquietante". "É um completo contrassenso em relação ao pensamento atual, aos projetos interessantes que são feitos hoje. Os bons arquitetos de Cingapura não têm voz em relação à arquitetura de lá. A surpresa é que, se existem pessoas para fazer o projeto aqui, por que buscar em Cingapura?", questiona o presidente da UIA.

No congresso em Maceió, houve um debate entre o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no DF, Paulo Henrique Paranhos, e o representante da pasta de Turismo do governo do DF, Geraldo Lima Bentes. "Não se trata de arquitetura, mas do desenvolvimento que queremos", disse Bentes, referindo-se ao chamado Plano Brasília 2060. "Mas não existe planejamento econômico sem pensar na questão do território", rebateu Paranhos. Todas as perguntas de estudantes de arquitetura feitas aos dois abordavam o tema Cingapura-Jurong. "Faço parte do governo e nunca ouvi falar dessa história de indústria de armamento, mas pode até ser", respondeu Bentes quando indagado por um estudante sobre a eventual instalação de uma indústria de Cingapura no DF. No plano que será apresentado pela empresa estrangeira, inclui-se a "identificação de conjuntos industriais prioritários".

O arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, homenageado na abertura do congresso, também criticou a parceria do governo do DF em entrevista. "Uma proposta para acompanhar o planejamento da cidade por 50 anos, acho isso lamentável. Não existe quem seja vidente ou faça ficção científica. É um planejamento que envolve um país que não tem afinidades culturais conosco." Para Sérgio Magalhães, presidente do IAB, o Plano Brasília 2060 é "absurdo e inaceitável por vários motivos". "Pega muito mal para o Brasil."

O governador Agnelo Queiroz foi a Cingapura no início de outubro para assinar o contrato com a Jurong Consultants. No contrato, de US$ 4,25 milhões, a empresa de Cingapura tem prazo de 20 meses para elaborar os estudos e se compromete a fazer "pelo menos seis viagens" a Brasília.

 (O repórter participou do 24° Congresso Panamericano de Arquitetos, em Maceió, a convite do IAB)

2 comentários:

arquitetaamelia disse...

Vamos juntos reverter esse impasse? Anular tais tomadas de decisão? O Ministério Público deve ser acionado. Com dispensa de licitação? Será que no Brasil não há equipes competentes para tais empreendimentos e trabalhos? Além de ser uma questão de soberania nacional a questão do ordenamento territorial é da nossa competência.
Vamos reverter isso? Mobilizemo-nos porque somos Arquitetos Urbanistas patriotas!

Anônimo disse...

Me desculpe, não tem nada haver com soberania, isso tem haver com CORPORATIVISMO, pois o GDF não vai mais contratar arquitetos com viés POLITICO CORPORATIVISTA. Apoio o governador, e pior, a área supracitada não está dentro da área TOMBADA, portando a UNESCO não pode meter o dedo. Se meter, aí sim, estará ferindo a soberania.