segunda-feira, 24 de junho de 2013

ARTIGO: A política só não perdoa os ingênuos

por Bruno Cesar Euphrasio de Mello*

Para além das manifestações de apoio às revoltas populares, temos que relembrar algo que todos aqui já sabem (e não quero ensinar padre a rezar missa). A politica não perdoa os ingênuos. A parte nosso entusiasmo em relação aos movimentos atuais, vejo ‘o ovo da serpente’ que foi chocado nos últimos anos ‘quebrando a casca’. Ódio, muito ódio, politicamente posicionado à extrema-direita...” Apoiamos, mas precisarmos estar atentos. 

Falo a partir de minha experiência aqui no RS. Mais do que habitualmente, ouvi várias rádios (Guaíba, Gaúcha, rádios de musica “jovem”, etc) e acompanhei a imprensa de maneira geral. E o coro uníssono na imprensa - já algum tempo até - é de que há uma descrença enorme em relação aos partidos políticos, de que ninguém mais se sente contemplado pela esfera institucional, que o desalento é geral com os espaços e canais democráticos estabelecidos. Teve até quem sugerisse o fim dos partidos ou um movimento sem partidos. Isso esteve um pouco em pauta desde o inicio, mas eu não tinha me tocado numa coisa. Existem duas maneiras de fazer os partidos não existirem – um é a anarquia, outro é a ditadura. E parece que há um “sentimento” que começa a achar legitima, e até mesmo necessária, essa possibilidade. E foi aí que tive medo. 

Para exemplificar o que quero dizer... No filme do Tropa de Elite 2 tem uma cena, logo no inicio do filme, que há uma rebelião em na penitenciaria de Bangu 1. E o protagonista do filme, o Capitão Nascimento, liga para o governador dizendo assim: “Governador, temos aqui uma grande oportunidade. Está tendo uma rebelião aqui em Bangu 1. Podemos abrir as galerias e deixar que eles se matem. Depois entramos para acabar com o serviço”. E o sentimento que me ficou hoje é um pouco esse. Há aí colocada uma grande oportunidade. 

Para vocês terem uma ideia, ontem depredaram e tentaram invadir a sede do PT aqui em Porto Alegre. E quando você ouve na rádio um jornalista gaúcho reacionário e abertamente direitista apoiando, um discurso meio positivo em relação às manifestações por parte de uma parcela da mídia, a hostilidade com partidos à esquerda e centrais sindicais (como houve no RJ), a coisa parece ficar esquisita. 

Há uma grande revolta nas ruas, há uma massiva campanha de desmoralização dos caminhos institucionais de diálogo e mediação de interesses/conflitos, que são as esferas politicas (os partidos, os movimentos organizados, os sindicatos, o governo, etc). Isso pode ser “orientado”, se bem conduzido, para uma virada de mesa. Ou para uma intervenção dura, que se justificaria pelas circunstancias. Tinha alguns hoje na rádio pedindo que a Dilma tomasse uma atitude radical e retirasse o Renan Calheiros da presidência do Senado na marra, que fizesse passar essa ou aquela lei. Mas peraí!? Aí é o Estado de exceção. E o camarada se sentiu à vontade de dizer isso na rádio, sem ninguém que estava ao lado dele contestar. 

Alguns estavam tentando um coro “Fora Dilma!”, mas ele não pegou. Quer dizer, ainda não pegou. Tomara que não pegue! Mas o problema é que há uma massa de pessoas (muitos jovens) que nunca participou de nenhuma esfera politica – nem associação, nem diretório de estudantes, nem de nada – que é extremamente individualista e, se posso dizer assim, despolitizado. Estes conhecem a realidade brasileira apenas unilateralmente, através do que lhes é mostrado, mas não por terem vivido. Imagina esta pessoa escutando na rádio que a Dilma deve tirar o Renan da presidência do Senado e não sabe que existem três esferas de poder - Executivo, Legislativo, Judiciário - e que o Estado democrático de direito preza pela independência dos poderes, execrando a intervenção de um poder no outro. E que a primeira coisa que um Estado Ditatorial faz é calar o legislativo e dar superpoderes ao executivo.

 Hoje de tarde fui, representando o Sindicato, numa reunião de movimentos populares e a leitura dos trabalhadores, do pessoal desses movimentos, era de que a descrença na politica e nas esferas institucionais é um risco gigantesco. E também todos falaram que, por mais que sejam necessários avanços nas politicas, várias coisas importantes foram conquistadas nos governos do Lula e da Dilma. Quem é mais pobre sente isso na pele. 

Qualquer dia alguém vai marchar, novamente, pela pátria, pela família e pela propriedade, como em 1964. Aí pare o mundo, que eu quero descer. 

Quem não acredita na politica, acredita na violência. A diplomacia e o diálogo são os meios de disputar espaço no mundo. De fazer com que as pessoas não se matem para se impor. E ai se ganha, se perde... faz parte do jogo. Mas quem não acredita nisso propõe a imposição e a violência. 

Redes sociais são importantes, parecem ter mobilizado muita gente. Mas vamos agora escolher presidente da república por enquete no facebook? E se derrubarem os espaços institucionais - o voto, os partidos, o processo democrático - vamos entregar o país para ser administrado por quem, pelo bondoso Luciano Huck. 

Que momento! Que dilema! Fazer o que agora? Povo na rua é importante. Sempre pensamos nisso. Sempre quisemos isso. É importante termos nossas pautas discutidas, expostas. Mas o que está acontecendo aqui agora? Tempos difíceis esses. 

Não sei direito o que pensar. Não sei o que vai dar. Sei que o movimento que, em certa medida iniciou a manifestação pelas passagens, o “O Movimento Passe Livre”, parece que se retirou das manifestações. Por que será que eles se retiraram? 

Como estamos no olho do furacão, com um monte de coisa acontecendo, com todo mundo falando só nisso, fica difícil ter um distanciamento critico maior.

*Arquiteto, Professor  e Diretor do SAERGS

Um comentário:

Yan Furtado disse...

Boa Brunão, agora só falta se render as redes sociais pra debater mais esses textos!!!!